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Translated Senses | Sentidos Transpostos

  • Rua de Tânger, n.º 1281, 4150-721 Porto, Portugal · Porto
Espa\u00e7o Q \/ QuadraSoltas Publisher / Host Espaço Q / QuadraSoltas
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Translated Senses | Sentidos Transpostos
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A curatorial statement for a joint exhibition of Iara Magalhães and Silvia Salvagno

Chromesthesia is a neurological event: a sound arrives and, before the mind has time to name it, it is already a colour. It is not metaphor — for the small number of people who experience it, hearing and seeing are not two separate acts but one. Iara Magalhães paints from inside that condition. Her Chromesthesia series is not illustration of music; it is documentation of an involuntary translation, made visible in the instant before it becomes language.
This exhibition proposes that Magalhães is not alone in that practice, even if her collaborator does not share her diagnosis. Silvia Salvagno's paintings perform an equivalent, slower translation: not sound into colour, but time, displacement, and memory into paint. Both artists work by letting one kind of experience become another. Neither is describing a subject so much as finding the visual equivalent of something that has no image of its own — a chord, a childhood coastline, the sensation of twenty years lived across several countries. The exhibition takes its premise from this shared act of translation, and its title from the condition that names it most precisely for one of the two: Translated Senses.
Iara Magalhães (b. 2000, Porto) trained as a painter at the Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto and, in parallel, as a jazz vocalist and composer at Berklee College of Music, where she graduated summa cum laude in 2025. Her practice sits at the intersection of these two disciplines. In Chromesthesia, Indian ink and watercolour are allowed to bleed, pool, and collide on paper and, in a related body of work, on glass — the same loss of control that lets a single chord fracture into blues, reds, and blacks across a canvas. The paintings are large, saturated, and immediate: colour arriving before form settles, in exactly the order Magalhães experiences it when she sings.
Silvia Salvagno, an Argentinean painter living and working in Portugal, works in the opposite register, and from a different kind of training. After studying painting in Mexico, she completed her formation at the École des Arts de Braine-l'Alleud in Belgium, where painting was taught alongside art history and aesthetic analysis — an education that taught her to look at images as arguments about perception, not only as surfaces. She is currently pursuing a master's degree at the University of Porto, with research focused on ancient Latin American textiles, so that her studio practice and her scholarship now run in parallel.
Her Arenas collection incorporates sand from Portuguese beaches, seawater, and natural pigment, alongside a visual language built from fine, diffused layers of oil and watercolour — a palette so subtle it asks to be read slowly. Embroidery, learned from her grandmothers, threads craft and inherited memory through work that is otherwise painterly. Her research gives this thread a deeper history: ancient Latin American textiles are among the great traditions in which cloth is not decoration but a medium of knowledge, a way of storing and transmitting meaning through structure, pattern, and colour. Where Magalhães's colour is a direct transcription, Salvagno's is a distillation: two decades of a nomadic, multicultural life reduced to the barest, most ephemeral marks — a practice she describes as an invitation "to pause, reflect, and abandon oneself to a path of discovery into the beauty and peace of what is simple, fragile and ephemeral."
Placed together, the two bodies of work do not resolve into a single visual language — they are not meant to. What they share is method, not mood: both artists build images through water-based, only partially controllable processes, letting pigment behave the way memory and sound behave — imprecisely, in motion, resistant to being pinned down. Seen side by side, Chromesthesia's immediate, saturated blooms and Arenas's slow, diffused washes read as two tempos of the same act: the mind receiving something intangible — a sound, a memory, a place left behind — and finding, before it can explain it, a colour for it. Salvagno's textile research adds a third term to the conversation. Cloth, in the traditions she studies, is itself a form of translation: lived knowledge made into thread, colour, and structure. Her paintings carry that logic from the loom into pigment, just as Magalhães carries sound into ink.
Translated Senses asks its audience to do the same. The exhibition is conceived less as a comparison of two painters than as a pairing of two translation devices, installed in dialogue: a viewer moving through the space encounters first the immediacy of sound made visible, then the slower unfolding of memory made visible, and is invited to notice that both processes are, at root, the same gesture — the eye asked to do the work of another sense entirely.
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Texto curatorial para uma exposição conjunta de Iara Magalhães e Silvia Salvagno
A cromestesia é um fenómeno neurológico: um som chega e, antes de a mente ter tempo de lhe dar nome, já é uma cor. Não é uma metáfora — para o pequeno número de pessoas que a experienciam, ouvir e ver não são dois atos separados, mas um só. Iara Magalhães pinta a partir dessa condição. A sua série Chromesthesia não é ilustração de música; é o registo de uma tradução involuntária, tornada visível no instante anterior a transformar-se em linguagem.
Esta exposição propõe que Magalhães não está sozinha nessa prática, ainda que a sua companheira de exposição não partilhe o seu diagnóstico. A pintura de Silvia Salvagno realiza uma tradução equivalente, mais lenta: não do som em cor, mas do tempo, do deslocamento e da memória em tinta. Ambas as artistas trabalham deixando que um tipo de experiência se torne outro. Nenhuma descreve um assunto tanto quanto procura o equivalente visual de algo que não tem imagem própria — um acorde, uma costa da infância, a sensação de vinte anos vividos em vários países. A exposição parte deste ato partilhado de tradução e deve o seu título à condição que o nomeia com maior precisão para uma das duas: Sentidos transpostos.
Iara Magalhães (n. 2000, Porto) formou-se como pintora na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e, em paralelo, como cantora de Jazz e compositora na Berklee College of Music, onde concluiu o curso com o grau summa cum laude em 2025. A sua prática situa-se na interseção destas duas disciplinas. Em Chromesthesia, a tinta da China e a aguarela são deixadas a escorrer, a acumular-se e a chocar sobre papel e, num conjunto de trabalhos afim, sobre vidro — a mesma perda de controlo que permite a um único acorde fraturar-se em azuis, vermelhos e negros ao longo de uma tela. As pinturas são grandes, saturadas e imediatas: a cor chega antes da forma assentar, exatamente pela ordem em que Iara Magalhães a vive quando canta.
Silvia Salvagno, pintora argentina a viver e a trabalhar em Portugal, trabalha no registo oposto, e a partir de um tipo de formação diferente. Depois de estudar pintura no México, completou a sua formação na École des Arts de Braine-l'Alleud, na Bélgica, onde a pintura era ensinada a par da história da arte e da análise estética — uma educação que a ensinou a olhar as imagens como argumentos sobre a perceção, e não apenas como superfícies. Frequenta atualmente o mestrado na Universidade do Porto, com investigação centrada nos têxteis antigos da América Latina, de modo que a sua prática de atelier e a sua investigação correm hoje em paralelo.
A sua coleção Arenas incorpora areia de praias portuguesas, água do mar e pigmento natural, num léxico visual construído com camadas finas e difusas de óleo e aguarela — uma paleta tão subtil que pede para ser lida devagar. O bordado, aprendido com as avós, atravessa de ofício e de memória herdada uma obra que é, de resto, pictórica. A sua investigação dá a este fio uma história mais profunda: os têxteis antigos da América Latina contam-se entre as grandes tradições em que o tecido não é decoração, mas meio de conhecimento, uma forma de guardar e transmitir significado através da estrutura, do padrão e da cor. Onde a cor de Magalhães é uma transcrição direta, a de Salvagno é uma destilação: duas décadas de uma vida nómada e multicultural reduzidas às marcas mais despojadas e efémeras — uma prática que a artista descreve como um convite a parar, a refletir e a deixar-se levar por um caminho de descoberta da beleza e da paz do que é simples, frágil e efémero.
Colocados lado a lado, os dois corpos de trabalho não se resolvem numa única linguagem visual — nem é essa a intenção. O que partilham é o método, não o tom: ambas constroem imagens através de processos à base de água, apenas parcialmente controláveis, deixando o pigmento comportar-se como a memória e o som se comportam — sem precisão, em movimento, resistindo a ser fixado. Vistas em conjunto, as manchas imediatas e saturadas de Chromesthesia e as lavagens lentas e difusas de Arenas leem-se como dois andamentos do mesmo ato: a mente a receber algo intangível — um som, uma memória, um lugar deixado para trás — e a encontrar, antes de o poder explicar, uma cor para isso. A investigação têxtil de Salvagno acrescenta um terceiro termo à conversa. O tecido, nas tradições que estuda, é ele próprio uma forma de tradução: conhecimento vivido transformado em fio, cor e estrutura. A sua pintura leva essa lógica do tear para o pigmento, tal como Magalhães leva o som para a tinta.
Sentidos transpostos pede ao público que faça o mesmo. A exposição é concebida menos como uma comparação entre duas pintoras do que como o par de dois dispositivos de tradução, instalados em diálogo: quem percorre o espaço encontra primeiro a imediatez do som tornado visível, depois o desenrolar mais lento da memória tornada visível, e é convidado a reparar que ambos os processos são, no fundo, o mesmo gesto — o olhar a quem se pede que faça o trabalho de um outro sentido.
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