Advertisement
O paradoxo de uma aproximação face ao que nos é distante. Somos solidários com causas universais, por exemplo a Palestina. Nunca poderá deixar de ser de outra forma. O silêncio é e será sempre conivência.O silêncio como o manto diáfano do apagamento, da exclusão, da não confrontação com o que acreditamos ser o correcto. Este silêncio não poderá ser mais tolerado. Nem na Palestina, nem em todos os territórios colonizados, nem nas realidades que nos são próximas. Ao menos nestas, podemos alimentar a vontade de alterar o estado das coisas.
Andamos cansados. Como imagem, recorremos ao paradoxo de Sísifo necessitar de um monta-cargas. O que não podemos, por enquanto, é deixar de lutar. E esta luta passa, por uma mensalidade, que agora a Nariz Entupido inicia nas Damas. Associar-nos a referentes éticos como as Damas, não é somente uma questão de solidariedade é uma denúncia para que se levante o manto diáfano sobre espaços e práticas, que todxs sabemos, não caracterizam uma comunidade solidária e subversiva.
Felizes, e tanto, por ‘Sísifo no monta-cargas#1’ contar com os concertos de Cali e Delphine Dora & Anaïs Tuerlinckx. Aparecer nunca será obrigação, no mínimo - acto sensível.
DELPHINE DORA & ANAÏS TUERLINCKX | A prolífica outsider francesa Delphine Dora alia-se à artista sonora e pianista belga Anaïs Tuerlinckx neste conjunto colaborativo e místico, metamorfoseando a sua voz em várias formas enquanto Tuerlinckx extrai sons sobrenaturais de uma mesa de instrumentos ruidosos. Improvisação hipnótica e transcendente – RIYL Limpe Fuchs, Meredith Monk ou Ghédalia Tazartès.
Da última vez que ouvimos falar da Dora, ela estava a expandir os limites da linguagem no brilhante ‘Le Grand Passage’. Aqui ela vai ainda mais longe, envolvendo as suas canções de embalar ritualísticas e ecoantes em torno dos volumosos arranhões e sinos da improvisadora Tuerlinckx. A inspiração da dupla para esta obra são ‘aspectos ocultos da perceção e experiências passadas’. Elas interpretam o tema da maneira mais indireta, deixando a maior parte da narrativa à nossa própria imaginação. Mas há um caminho iluminado por tochas que nos conduz, pelo menos, quando as expressões secas e infantis de Dora – ‘Tiger tiger burning bright, in the forest of the night’ — aparecem no final da breve abertura ‘Tyger Tyger’. Quase imediatamente, à medida que a faixa se desvanece em ‘Visions Dans L'ombre’, a voz de Dora assume uma forma diferente, a sua realidade ressecada abstraída por um eco metálico e um atraso. A sua abordagem é quase acrobática e desarmadamente livre da fórmula tradicional, enquanto ela canta, grita e guincha em várias línguas; comparativamente, o acompanhamento de Tuerlinckx é mais subtil, mas não menos cabalístico quando a percussão e as vibrações das cordas com força industrial emanam das sombras.
Na peça central do álbum, a extensa ‘Sauvage Errante’, parece que a dupla está a articular um ritual ambíguo. Os tiques rítmicos de Tuerlinckx dissolvem-se em guinchos de sirenes de nevoeiro distorcidos pela fita, e o espaço quase se dobra sobre si mesmo, deixando os gemidos corais de Dora prenderem-se em espirais fantasmagóricas. Mais uma vez, ambas mantêm o ritmo, mudando regularmente: as improvisações dão lugar a loops entrecortados e as harmonias sagradas transformam-se em dissonâncias sobrenaturais. Em ‘Dans Une Nuit Paisible Désirs Cinglants’, os sussurros arrepiantes de Dora cobrem os ruídos estridentes de Tuerlinckx, que a princípio parecem insetos distantes, mas acabam por evoluir para uma interferência de rádio inquietante. É como receber uma transmissão amaldiçoada de outra zona, da melhor maneira possível. Se ao menos mais improvisações livres fossem assim tão descontroladas e sinceras. [boomkat.com/products/l-oeil-de-la-tigresse]
possiblemotive.bandcamp.com/album/loeil-de-la-tigresse |
CALI | Ana Carolina Rodrigues é uma violoncelista bracarense com formação erudita. Procura um universo sonoro íntimo onde a improvisação se entrelaça com estruturas subtis. Inspirada por músicas do mundo e pelo experimentalismo minimalista, constrói pontes entre espaços e tempos, resultando numa contemplação de movimento e silêncio. Com estudos na Academia Nacional Superior de Orquestra em Lisboa e na Schola Cantorum em Paris, foi bolseira da Fundação Gulbenkian. Trabalha em formato de orquestra, música de câmara e projetos interdisciplinares. Integra o Duo Dahlia e o projeto ZACHARIAS.
instagram.com/anacarolina.rodrigues
Contribuição sugerida | 05 euros [à porta no dia do concerto]
Advertisement
Event Venue & Nearby Stays
DAMAS - Bar • Sala de Concertos, Rua da Voz do Operário, 60,Lisbon, Portugal
Concerts, fests, parties, meetups - all the happenings, one place.










